Livro coletivo

Este é o projeto de livro coletivo da DVS Editora originalmente publicado no Facebook. Usaremos esta página para organizar e editar o material. Você também pode participar desta etapa utilizando a caixa de comentários abaixo do texto. A mudança de altores é marcada pela troca de cores. O vermelho indica os comentários (entre colchetes) e as edições do editor. 

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Nome: Daniel Gomes, ou seria melhor um apelido? Dani Go. Sexy. Mas será que é meio gay? Melhor não. Mas talvez mostre atitude. Vou preencher o resto enquanto isso. Altura: 1,83m. Não, 1,85m. Melhor. No Brasil, as mulheres gostam de homens mais altos. Peso: 103, tá 98. Três dígitos não dá. O cadastro do meu currículo no Pró-Job foi bem mais fácil. Não precisei mentir. Depois de 20 anos morando em Portugal, voltarei para o Brasil com um currículo de fazer inveja e com o dinheiro que receberei da herança posso entender minha nova vida antes de começar a efetivamente trabalhar em algum lugar. Que irônico, passarei meu aniversário de 35 anos de mudança, sozinho, de volta para o país no qual eu nasci e conheço quase nada. Meu português quase não tem sotaque. Em casa, sempre falamos o português mais Paulistano de todos, com direito a muitos “ô meu”, “pô cara” e tudo mais, isso fez com que eu fosse um cara “bilíngue” em Português. Que ridículo que eu sou, isso lá é coisa que se escreva no campo “Fale mais sobre você” no site de relacionamentos “Eu e Você.com”? Daniel, seu ridículo, pare já de falar sozinho e escreva algo decente nesse formulário, caso contrário será um velho milionário e [mais adiante no texto é falado que ele só receberá a herança caso se case] solitário em seu apartamento nas Perdizes com 19 gatos e, além disso, está na hora de correr e pegar a documentação restante. Dani Gomes, 1,88m de altura, 95 quilos, sarado. Não, sem o sarado. Pronto, agora sim eu iria querer sair comigo. [autoria do trecho: BRANCA BARÃO]

Antes de largar o tablet e sair de casa, ainda dei aquela última olhada na caixa de entrada do Gmail – por mais que eu sempre acabe participando das redes sociais do momento, e-mail ainda é meu meio de comunicação virtual favorito. Há alguns dias estava me correspondendo com um amigo:

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Dani Gomes <dani.go@gmail.com>
para Wesley

No dia em que percebi que toda brasileirada estava vindo gastar dinheiro na Europa, decidi que era hora de voltar pro Brasil. Não existe motivo pra passar frio longe de casa e das praias brasileiras, se não for pra ganhar dim-dim. 

Português entende de saudades e só. Sentirei saudades deles.
Fora que eu me alimento de música e a música portuguesa morreu faz anos, né? Fala sério, que banda portuguesa você conhece? Mata-Ratos? Barulho puro. Madredeus? Sono absoluto… A música que toca aqui em Lisboa é música brasileira. Música brasileira de baixa qualidade: Gabriel, o Pensador e Ivete Sangalo, ou seja: uó! No meu iPod não cabe porcaria, sorry, temos tão pouco tempo pra viver, não dá pra discotecar com música ruim na trilha sonora de nossas vidas.

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Wesley Santos <wexsantos@gmail.com>
para Dan

Aliás, que tipo de música você gosta?

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Dani Gomes <dani.go@gmail.com>
para Wesley

Eu, particularmente, Curto indie rock, bossa nova, samba e um pouco de música clássica. Só um poquinho, porque tentei tocar piano quando tinha uns 7 anos. Minha mãe achava tão lindo piano, sabe? Aquela coisa cafona de dedilhar Chopin – romântico ao extremo – a família inteira reunida em volta de mim no almoço de domingo, uma foto do time da Lusa campeão paulista de 1973 enquadrada, uma pinturinha do Carlitos na parede amarelada, minha tia Cotinha de bobs… Gente, a família é uma indústria brega de neuroses, não é? Deus criou a família quando expulsou Adão e Eva do Paraíso. Você acha que a maior punição por ter mordido a maçã do pecado foi a mortalidade? Há, há, há. Adão e Eva não tinham pai, mãe, sogra, filho, cunhado folgado, namorado da filha… Imagina a alegria? Anfã, agora tô sozinho, livre, leve e solto. Quase sozinho, né? Tem minha mãe com alzheimeir internadinha aqui em Lisboa e minha irmã louquinha que sumiu no Brasil. O que me deixa como o único herdeiro do tio Manuel Joaquim. Só preciso agora cumprir o que ele exigiu no testamento: “Deixo todo meu dinheiro para o meu sobrinho-neto Daniel Gomes, assim que ele se casar com mulher católica. Caso contrário, o dinheiro deve ficar com sua mãe. Caso sua mãe faleça, o dinheiro ficará para a minha sobrinha-neta Matilde”.
Dinheiro para Matilde? Que nunca visitava o tio? Que não aguentava aquele bafinho de alheira vindo quente no nariz quando ele ia contar pela trigésima vez a juventude dele na aldeia no norte de Portugal? Que não comia aquele coelho horrível que ele cozinhava e dizia que estava uma delícia? Ah, não, dinheiro pra Matilde é muita sacanagem. Eu até caso para herdar a grana. Eu até caso com uma mulher. Tá achando o quê? Tá doido?

P.S: 
JéssiKa Strass cutucou você.
Cutuque de volta.

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Wesley Santos <wexsantos@gmail.com>
para Dani 

Jéssika Strass? Jesus, que pessoa péssima, olha essas fotos no Face dela! 

1.Bundona empinada, coberta por um mini fio dental, em foto de costas na praia.
Legenda: letra do Natiruts

2. Decotão master bebendo com as amigas na balada.
Legenda: citação falsa da Clarice Lispector

3. Braços abertos na frente do Cristo Redentor, braços abertos na frente da Estátua da Liberdade, braços abertos na frente da Torre Eiffel.
Legenda: “amo muito tudo isso”

Clichê do clichê. Aff…

E essa da Oktoberfest? De chapéu e canecona. Aimeudeusdocéu, não! Que pessoa péssima, do tipo que meus amigos mais ogros iam querer pegar…


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Dani Gomes <dani.go@gmail.com>
para Wesley

Opa! “Do tipo que meus amigos mais ogros iam querer pegar”, genial! É isso mesmo que tô precisando agora  Bora adicionar essa mulher de dotes AVANTAJADOS and cutucá-la no Face de volta. Mais que isso vai ser muita moleza. Mulher gosta de se sofrer. Todo homem deve ser um pouquinho cafajeste, né? Se não, não tem graça… Igual o Mauro, ai o Mauro… He, he, he.
Trabalho feito, vamos aproveitar pra dar aquela stalkeada básica no Face, já que aqui estamos. Falta bem pouco agora pra eu voltar pro Brasil e ficar podre de rico em Perdizes, tchu ru ru! Vamos ver o que esse povo tá postando de bom. Hum, adoro o “Site dos Menes” melhor humor 2.0, ever! E isso aqui? “Convite de evento do lançamento do livro ‘Canções para ninar adultos’”, é o livro daquele amigo brasileiro do Hugo – o @Fred Di Giacomo. Moleque mala, aproveita qualquer brecha pra querer aparecer… [autoria do trecho: FRED DI GIACOMO]

* * *

Bem, é hora de ir atrás dos documentos. Na volta passo na casa de repouso para visitar minha mãe, e aproveito para ajeitar a transferência dela para o Brasil. O caminho consigo percorrer de elétrico, o bonde aqui de Lisboa. Essa era minha despedida da cidade, do país, do velho continente. Se tudo der certo, terei grana para contratar um ou uma acompanhante para minha mãe, nem precisarei voltar aqui. 

Capítulo 2

No caminho para o aeroporto encontro Rafaela, aquele amor perdido que surge numa dessas noites perdidas em que você pouco se reconhece ao olhar no espelho daquela matinê do aniversário do seu primo. Aquele amor que ainda com todos os pontos contra passa dois anos tentando fazer você entender que ternos risca de giz e o foursquare não valem mais a pena.

Trazia o melhor de si naquele vestido alaranjado e cheio de estampas ridículas, pensei que talvez ela soubesse de minha partida e fosse tentar algo novo, uma ultrarrápida escapada no banheiro público da praça central ou um apelo dramático que venceria qualquer premiação de performance em reatar relacionamentos – caso existisse uma premiação babaca dessas.

Olhou pra mim e disse ‘oi’, seguindo em frente sem parar. Como se houvesse visto um vizinho distante ou um estagiário temporário de um ex-emprego. E, bem, eu era o estagiário – Ou o ex-emprego, dependendo do seu ponto de vista.

Um silêncio ensurdecedor se fez presente. Minha cabeça não estava preparada para o descaso, logo agora que preciso de alguém para preencher este vazio que existe em mim, digo, em minha conta bancária etc. “Dois anos juntos e ela nunca usou o maldito vestido laranja”, foi o primeiro pensamento após todo esse hiato mental – coisa de três ou quatro segundos, chutando bastante alto.

Aquele vestido laranja dizia algo além de marcas voluptuosas no corpo da moça, obviamente. Dizia quem eu era anos atrás quando entrei naquela loja de departamento a procura do primeiro presente de aniversário de namoro e de como foi sentir-se parte distante de si mesmo, de encarar aquela visão de mundo parcial e desconexa, enfrentar a cada dia um novo porém, não só pela garota, mas porque poxa, a vida parecia mais promissora antes dela e você ainda ficava a fim de fazer check-in no foursquare e ganhar uma badge constrangedora, entende? E de repente se via abandonar toda sua história ao parcelar no crédito aquele pequeno e atual sonho de outrém.

No minuto inteiro em que passei olhando pedaços da cidade pela janela do avião ainda parado, percebi que Rafaela era o ícone maior das coisas que eu deixava pra trás, as certezas que foram vencidas pelo tempo. No momento daquele ‘oi’ sem grande atenção, Rafaela deixara de existir, Portugal deixara de existir. Naquele instante eu era apenas o Brasil, a grana do tio, minhas notificações no celular e um senhor obeso no banco ao lado que certamente deveria ter comprado um assento extra. [autoria do trecho: ROBSON ASSIS]

Era madrugada, com um copo de vodca ao lado do computador, bisbilhotando perfis femininos, já cansado de tantas fotos de mulheres e tanto ler superficialidades, sentia-se de fato melancólico. Talvez o excesso de álcool, afinal acabara de chegar do bar, no qual revira vários amigos que há muito não via. A viagem havia sido tranqüila, não avisara ninguém que chegava. Do aeroporto foi direto para o antigo apartamento na zona sul de São Paulo. Bastaram dois dias para que tudo estivesse em ordem e ele descansado. Ligou para uns poucos amigos e marcou de sair. Enfim, retomaria, ou melhor, recomeçaria sua vida no Brasil. E ali estava, entre um drink e outro, matava as saudades e ao mesmo tempo as curiosidades de todos sobre os costumes de Portugal…
– E as portuguesas? Rindo perguntara Bruno.
– Ah, são choronas demais, o fado realmente marca a vida daquele povo, as mulheres então, são românticas demais, dramatizam tudo, não, definitivamente para mim não dá! 
– Como assim? Quer dizer que não flertou com o fado? Imagino que saiba que está falando hoje de um patrimônio imaterial da humanidade! Fados são poemas musicados… A dor do ser humano em poesia, eu adoraria ver e ouvir a nova geração do fado com a voz tímida e doce de Ana Moura, Carminho… E tantos outros. E o que dizer de Paulo Gonzo, Mariza, Lucia Moniz, Nelly Furtado e Pedro Abrunhosa? São divinais!!! Ah, Daniel, até parece que você se manteve alheio à poesia do lugar, confesse que tudo o que via era a possibilidade de ganhar dinheiro e não teve sensibilidade nem para a beleza da música portuguesa, nem para as raparigas do lugar… (Foi Edson quem lhe alfinetara, recentemente passou no vestibular da Usp e gostava mesmo de aprofundar quaisquer conversas de bar)
– Hahahaha (rio demais Daniel) O fado é simplesmente enfadonho pra mim… Nada como um bom rock para nos acordar! Por isso, voltei!
Edson que já estava a par da situação, não deixou por menos: 
– Mas, não se trata de escolhas, curto rock também, você sabe… Agora, queres me convencer, de que voltastes mesmo pelo rock? Hã hã, não seria pela mesma razão que partiste: dinheiro?
Todos riram, e cada qual sugeria uma forma para que Daniel alcançasse seu intento: descobrir uma católica que por ele se apaixonasse a ponto de com ele se casar ou apenas uma católica suficientemente ambiciosa que topasse o intento para com ele dividir a herança… 
– Estão loucos!!! Dividir a herança? Claro que não! A tal mulher que eu encontrar vai ainda me fazer economizar… Cuidará da casa! Ao que todos, já bêbados, riram… Era o mesmo Daniel inconseqüente que voltara…
Agora, não sabia bem porque, ao revirar páginas e páginas do facebook, se lembrara daquela reflexão, lembrou-se também do que vivenciara com Rafaela e que terminara com aquele ‘oi’ quase sem voz, sem interesse, despreocupado, sem nenhum sinal de vínculo ou marca deixada nela… É… Pelas marcas que sentia agora, parecia haver nele uma tendência ao fado… Gostara mesmo daquela rapariga! Mas, ela jamais o entendeu… Não entenderia! Aliás, nem ele mesmo se entendia. Acreditava, no fundo no fundo, que homens e mulheres não são da mesma espécie… Há incompatibilidades demais, o jeito de pensar, de ver o mundo, a vida, tudo, absolutamente tudo é diferente. Tudo bem que muitos acreditam que isso apimenta a relação, e que afinal as diferenças se complementam… Eu não! Quero paz, aconchego, quero sim, alguém que pense como eu…(Talvez este fosse o tom de sua melancolia.)
Mais um gole de vodca! Pensou e bebeu. O passado passou, ponto!
Era agnóstico, mas enfim, para se dar bem, deveria se concentrar em buscar uma católica e lhe convencer que era um bom partido, só assim resolveria seus problemas financeiros, isso é o que deveria focar! Voltou a bisbilhotar, não importava que fossem superficiais, precisava urgente de uma mulher que não fosse medonha, fosse católica e que enfim o aceitasse para se casar e receber a tal herança!
O interfone do apartamento toca. Quase cai da cadeira com o susto, tão perdido estava em seus pensamentos. Cambaleando vai até a copa e atende.
– Há aqui uma moça querendo subir, Matilde! Diz que é sua irmã, posso deixar subir? 
Apoiou-se no azulejo da parede, depois esfregou o rosto com as mãos, como querendo acordar de um pesadelo, e por segundos intermináveis ficou absolutamente zonzo… Como assim, irmã? Onde esteve, o que queria, há tanto nada dela sabia… Enfim, gaguejando respondeu:

– Sim, deixa ela subir…
Atônito volta e pega o copo de vodca e o esvazia de uma só vez; dá uma boa olhada ao redor como para conferir se o lugar está apresentável, arruma os cabelos diante do espelho, percebe os olhos avermelhados… Respira fundo! Pareceu ter cronometrado esses instantes, a companhia tocou quase que imediatamente ao som do elevador que ouviu chegar…

Abriu a porta. [autoria do trecho: RACHEL NANCI]

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